o ano em que o design saiu de férias
senta que lá vem história.
viajar pros anos 70 no Brasil é se enfiar na história de um país acelerado e sufocante. a ditadura controlava absolutamente tudo (menos a rebeldia de quem insistia em questioná-la).
enquanto isso, o tal “milagre econômico” empurrava grandes obras, indústrias e dívidas pra frente, junto ao desemprego e ao aumento da desigualdade social. um período marcado por contrastes, e que segue atravessando o nosso imaginário até hoje.

o país nessa década vivia uma espécie de “revolução industrial tardia”, sob o governo Médici (1969–1974). em outras palavras, o Brasil reproduziu características típicas das revoluções industriais dos países imperialistas (como EUA, Japão e Europa Ocidental): concentração de capital, aumento da capacidade produtiva e reorganização social em torno do trabalho urbano-industrial.
a linda promessa herdada do Brasil República de “ordem e progresso” continuava beneficiando sobretudo as elites e o capital estrangeiro, ampliando a concentração de renda, enquanto aqueles que se opunham ao regime eram submetidos a uma repressão violenta constante no cotidiano do país.
destaco excepcionalmente um episódio importante em 1970: a consagração dos “heróis” da Seleção Brasileira no México, que trouxe ao país a terceira taça da Copa do Mundo. foi nesse momento que a camisa verde e amarela se consolidou como um artefato social otimista, fundamental na construção da identidade nacional promovida pelo regime.
símbolo que, até hoje, segue no centro de uma disputa sobre o que significa “ser brasileiro”: afinal, de quem é a camisa? dos bolsonaristas? da quebrada apaixonada por futebol e que coleciona camisa de time? da gringolândia fã de “brasilcore”? quem, de fato, dita as respostas dessas perguntas?

nós que trabalhamos com design gráfico, sabemos que o uso da cor em nossos projetos exerce um papel discursivo e informativo dentro do sistema visual: as cores integram o plano de expressão das imagens e objetos, funcionando como elementos fundamentais da linguagem visual.
embora geralmente operem em conjunto com outros componentes gráficos, as cores também podem atuar como signos autônomos, capazes de representar ideias, valores e significados por si mesmas.

há quem diga que não, mas acredito que, nós designers, operamos nas sombras, e por isso, existe grande responsabilidade sobre todas as nossas decisões acerca de um projeto.
pode-se observar que o design gráfico foi mobilizado pela elite e pelo Estado brasileiro para atuar dentro e fora do campo, difundindo a imagem do “progresso” por meio do uso estratégico do verde e amarelo. as cores foram incorporadas ao imaginário popular como um espetáculo patriótico, enquanto, em paralelo — e sob a cortina dessa propaganda — o regime seguia assassinando, torturando, ocultando e censurando inúmeros corpos tingindo o país com a cor vermelha de sangue.

enquanto o design, nas mãos da nação-Estado, construía um imaginário popular espetacularizado, artistas e designers perseguidos e censurados disputavam esse mesmo espaço, fissurando a narrativa oficial por meio de imagens de resistência.
em ambos os casos, essas produções revelam que o design não é neutro: e que revisitar o design do período militar é também revisitar as feridas que atravessam a própria formação da identidade coletiva das pessoas que nasceram e habitam o território brasileiro.
proponho, portanto, um desafio: como podemos redesenhar um “Brasil” popular?

✦ coisas legais e ordinárias pra curtir ✦
[exposição] FUNK: Um grito de ousadia e liberdade (2025-2026)
se você estiver por São Paulo, não deixe de visitar a exposição sobre a história do movimento funk no Museu da Língua Portuguesa. com curadoria de Taísa Machado, Dom Filó, Amanda Bonan, Marcelo Campos e Renata Prado. as visitas são gratuitas aos sábados e domingos. para mais informações acesse aqui.
[filme] O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (1970)
o título da nossa newsletter foi inspirado na história do Mauro, um menino de 12 anos fã de futebol e futebol de botão, que é deixado pelos pais no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, enquanto eles precisaram “sair de férias”. Mauro cria novos vínculos com a comunidade judaica do bairro e vive, ao mesmo tempo, a solidão da espera e a euforia da Copa de 1970.
[acervo digital] Memórias da Ditadura
o projeto é uma realização do Instituto Vladimir Herzog, com o objetivo de difundir a História do Brasil no período da ditadura militar. neste link tem um vasto acervo gráfico de publicações da época. inclusive, vale checar o periódico feminista 'Mulherio’ que teve participação de uma de nossas maiores pensadoras – e também fanática por futebol e seu time Framengo – Lélia Gonzalez.
[filme] Democracia em preto e branco (2014)
conta a história de como Sócrates, Casagrande e Wladimir lideraram um movimento histórico no futebol e adotaram a democracia dentro do Corinthians como exemplo de protesto a ditadura militar no começo da década de 80.
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hoje foi golaço, né? pode falar. até quarta-feira que vem. forte abraço. <3
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